29 de set. de 2012

#Vamos em frente!

Este ano entrou para a história dos transportes. Em nível local, perdemos a gloriosa Viação Riograndense, vimos "nossas" Transportes Guanabara e Nossa Senhora da Conceição serem parcialmente vendidas a grandes grupos econômicos de Pernambuco, assistimos a protestos inéditos, com direito a ônibus queimados, bem como vivemos num tempo difícil para a querida Natal e o Rio Grande do Norte. Nacionalmente, ou melhor, mundialmente, perdemos uma grande multinacional brasileira: Busscar.  Muitos de nós, especialistas em ônibus, sofremos duros golpes da vida neste ano. Mas precisamos continuar, assim como todas as empresas que saíram de cena continuarão em nossos corações.

Então vamos dar uma aliviada hoje? Pois bem, vamos falar sobre um hobby que eu tenho além de fotografar e discutir sobre ônibus: dirigi-los! É isso mesmo, dirigir ônibus é uma coisa que eu faço pelo menos uma vez por semana. É difícil, não pensem que é só um "carro grandão". Ligar a chave geral, encher de ar o sistema de freio, ligar as luzes obrigatórias...e por aí vai. Para fazer uma curva numa rua apertada, haja paciência, fora as buzinas que acabo ouvindo atrás de mim. Tem as trancadas e os freios bruscos que os carros de passeio insistem em dar na minha frente, e nessas horas, aguenta coração! Ônibus não freiam rápido, mas usando freio-motor dá para parar sem causar nenhum acidente.

Se dirigir a máquina já não é tão fácil, fazê-lo com passageiros é ainda pior, e cumprindo horários, fica realmente "emocionante". Geralmente saio no período da tarde, pois gosto do simples prazer de ligar as luzes internas quando vai anoitecendo (coisa de apaixonado por ônibus mesmo), coloco um sonzinho ambiente bem leve para dar aquela aliviada do trânsito e então, é só lazer, ou melhor, trabalho! O problema é quando falta energia. Minha viagem é interrompida sem o menor respeito pelo motorista que vos escreve. Para a frustração ficar ainda maior, ouço no escuro minha mãe mandando eu ir procurar velas na cozinha. Complicado. 

É isso mesmo, eu dirijo ônibus em simuladores virtuais. Ainda não estou habilitado para dirigir veículos da categoria D, então resta-me o maravilhoso mundo da tecnologia, que me permite guiar uma infinidade de modelos de ônibus do mundo inteiro. Vou mostrar-lhes alguns dos jogos e simuladores que eu usei e uso para satisfazer meus desejos de ser um motorista de ônibus.

GTA 2 (jogo)

Foi o primeiro software que me permitiu dirigir um ônibus pegando passageiros. Ambientado na década de 60 (ou nos anos 50, não sei), o jogo que mais tarde tornaria-se uma febre entre os gamers ainda mostrava os veículos da perspectiva aérea. Me diverti muito com esse joguinho de 1999, ainda mais quando descobri que havia um ônibus no jogo e que este pegava passageiros. Na primeira fase ele faz um percurso "quadrado", curtinho mas divertido para um futuro especialista em ônibus de 12 anos de idade.

Ônibus presente no jogo GTA 2, da Rockstar Games - Fonte: Google



GTA Vice City (jogo)

Foi o segundo jogo onde eu encarnei um motorista de ônibus. Foi o último da série da Rockstar Games onde eu consegui pegar passageiros com um ônibus. Para saber o percurso que ele fazia tive que seguir um ônibus da inteligência artificial do título. Sabendo a rota, era só "roubar" um ônibus na rua e brincar de ser motorista. Vice City foi o melhor GTA para mim, pelas cores, pelas músicas das rádios, uma mistura fantástica que a produtora ainda não conseguiu repetir, mesmo que seus sucessores sejam muito mais avançados gráfica e fisicamente.

Ônibus de GTA Vice City, trucado e com um ronco inesquecível - Fonte: Google
Bus Driver (jogo)

Há quem diga que trata-se de um simulador. Discordo. Para mim ainda se enquadra como jogo, visto que há pontuações e objetivos a serem alcançados, além de fases para desbloquear. Foi o primeiro programa específico de ônibus que adquiri. Projetado pela mesma produtora do jogo 18 Wheels of Steel, mega sucesso para os amantes de caminhões, e que eu joguei por muito tempo, Bus Driver herdou muito do software irmão. Nele a condução do ônibus é difícil, onde o motorista deve seguir à risca os horários e deve ter muito cuidado com o bem estar dos passageiros. Joguei bastante, mas a impossibilidade de novos ônibus e de novas rotas o tornaram enfadonho para mim.

Bus Driver: é divertido, mas a rigidez do programa desestimula  - Fonte: Google

City Bus Simulator 2010 (simulador)

Agora sim, um simulador de ônibus. Embora de origem alemã, o jogo retrata a rotina de um motorista de ônibus na cidade de Nova Iorque, EUA, inclusive com direito a assaltos. Ainda existem missões nele, mas nada de escore ou fases. No simulador é possível sair de trás do volante para andar pelo corredor do ônibus GMC ou simplesmente passear pela cidade e tomar um chope ou um café (não é brincadeira, isso é possível). Graficamente, é bem real, mostrando sombras e efeitos climáticos com precisão, além de retratar com muita fidelidade o ônibus utilizado. Lançado em 2010, segue atual. Há ainda mods, ônibus adicionais, para instalar no software. Usei até cerca de um ano atrás, quando foi lançado um outro simulador, ainda mais real: OMSI.

Realismo evidente e muitas inovações no gênero, assim é City Bus Simulator 2010 - Fonte: Google

OMSI - Der Omnibussimulator (simulador)

É o meu eleito. Atual simulador que uso e que permite um grau de realismo impressionante. Na parte gráfica é inferior ao City Bus Simulator 2010, mas fisicamente é imbatível. Originalmente o jogo situa o condutor na Berlim, Alemanha, de 1989, com modelos de ônibus reais que serviram a cidade nessa época, todos da marca MAN e double-deckers. Um dos maiores trunfos de OMSI é o fato de ser relativamente fácil instalar novos ônibus e cidades no simulador. Digo "relativamente" porque a engine do software é complexa, o que explica o alto grau de realismo físico e funcional dele. Atualmente existem alguns ônibus brasileiros disponíveis para instalar, como o Marcopolo Torino GV e LN, além de alguns modelos da Caio e Busscar. Todos com sons e paineis próximos aos modelos reais. Há a possibilidade de fazer uma pintura da Riograndense, por exemplo, e aplicar num modelo do simulador, bem como alguma cidade que alguém queira inserir nele. Recomendo.

OMSI é um verdadeiro simulador de ônibus. A dificuldade no começo é recompensada pelo realismo - Fonte: Google

Existem outros programas que eu não utilizei, como o Bus Simulator, cuja qualidade não se mostrou tão alta para despertar meu interesse. Existe o famoso Mod Bus do jogo 18 Wheels of Steel Haulin, que conquistou muitos amantes de ônibus no Brasil, onde há uma empolgante variedade de ônibus brasileiros. Nunca me interessei por ele por causa da relativa complexidade na instalação, além do pouco realismo físico e auditivo. Questão de gosto, apenas.

Para finalizarmos, quero que lembremos do primeiro parágrafo, onde citei a Viação Riograndense e a Busscar, e dizer-lhes que essas empresas podem continuar no mundo virtual, em novos ônibus, em novas cidades, enfim, desfrutemos da tecnologia que está ao nosso alcance. Nunca será como antes, mas vai aliviar a saudade dessas "madames" que nos deixaram.

Bons finais de semana.
Rossano Varela

18 de set. de 2012

#Está chegando a hora!

Estava pronto para publicar na sexta passada um texto leve, para dar uma aliviada no ambiente, pesado dos dois últimos textos, ambos sobre o aumento e a diminuição da tarifa dos ônibus urbanos da cidade do Natal. Infelizmente, fui surpreendido pela notícia da suspensão da integração gratuita pelo Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros do Município do Natal (Seturn). Adiei a publicação, porque para mim, foi a gota d'água.

Não bastasse a frustração de não poder publicar algo prazeroso para nós, especialistas em ônibus, ainda tive muito trabalho para elaborar o texto que hoje vos escrevo. Foram vários rascunhos, não teve como não ser assim, afinal, toda a situação que a população natalense vive passou pela minha cabeça. Serviços exageradamente básicos estão sendo ofertados de modo inacreditavelmente deficiente, isso quando são oferecidos. 

Quando o assunto é transporte fico ainda mais bestificado. "Que Natal bagunçada é essa? Os empresários estão mandando na cidade agora? A Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) ficou refém da politicagem? E nós, população, vamos ficar "engolindo sapos" pelo resto de nossas vidas? Chega!". Calma, não estou surtando, expressei acima um sentimento que considero comum entre os cidadãos natalenses, sobretudo aqueles que utilizam o transporte público na capital e sua região metropolitana. É assim que têm surgido protestos na cidade. 

O Seturn foi longe demais. Numa atitude covarde e de cunho retaliativo, cortaram um benefício que a cidade tinha desde a gestão anterior na Prefeitura do Natal, ainda sob forma de Estações de Transferência. Pela primeira vez desde sua implantação o serviço de integração gratuita foi interrompido. Friso, porém, que o Sindicato está se arriscando muito, pois está ainda mais odiado pela população, o que pode se traduzir em retaliação. O povo vai revidar, da forma acessível a ele, e temo que isso signifique prejuízos para as empresas.

O natalense está muito sensível, mais ainda os estudantes, jovens, cheios de energia e ideologias. Estou aflito, e pela "propaganda" que tem sido feita pelas redes sociais, teremos uma manifestação mais forte do que a última que houve, a "Revolta do Busão". A Polícia Militar está armada, nos dois sentidos, os estudantes estão ainda mais revoltados, os ônibus estão nas ruas. Para bom entendedor, estas palavras bastam. Sou contra o vandalismo e a agressão física, mas nem todos pensam assim.

Um protesto está marcado para hoje, ao lado do Shopping Via Direta. A julgar pelo sucesso (?) do último movimento, Natal terá muito mais pessoas protestando nessa tarde e noite que podem entrar para a história da cidade. Espero que o faça com civilidade, paz e educação, de todas as partes. Que seja um marco para a democracia local. Mesmo com os votos, continuarei aflito até a hora em que puser os pés na minha casa porque estamos numa cidade desgovernada, e estou com medo de ouvir: "Ônibus tal, da empresa tal, foi incendiado na cidade do Natal". Estou torcendo que não, porque o caminho do desenvolvimento não é esse. 

Boa sorte para todos nós. Paz, tranquilidade, fiquemos com Deus.

Rossano Varela


8 de set. de 2012

#R$ 2,20!


         Eu não disse que a novela não havia acabado? Para nossa alegria o final foi feliz para a população natalense, pelo menos para aqueles que utilizam ônibus urbano. A população (leia-se estudantes) pressionou de todos os lados até que a câmara dos vereadores aprovou a revogação do aumento da passagem.
        Tivemos alguns ônibus pichados, alguns com dizeres ofensivos, o que não é certo, mas agradeçam os empresários por não terem nenhum de seus ônibus queimados. Foi melhor assim. Pior é em cidades como Teresina ou São Paulo, por exemplo, onde ônibus já foram queimados como forma de protestar.
           Mesmo com a sensação de vitória para a população, ainda estou incomodado com o futuro de nosso transporte público por ônibus urbano em Natal. A tarifa de R$ 2,20 não será eterna, certamente irá aumentar, ao passo que, temo eu, a qualidade de nossos ônibus permanecerá a mesma, ou talvez caia, mesmo com a licitação, que caminha a passos de tartaruga.
           Falando nela, estou aflito quanto à licitação aqui em Natal. Pelo que vejo ela tende a não beneficiar o passageiro, mas sim aos empresários. A julgar por algumas cidades do Nordeste, Natal certamente não sentirá mudanças no padrão de qualidade do serviço. Devemos permanecer com os ônibus de chassi com motorização dianteira e feixe de molas. Não sou contra o posicionamento do motor, mas esse tipo de chassi impede a construção de um ônibus plenamente acessível. O ideal é o ônibus piso baixo, o low entry, que beneficia o sistema em muitos aspectos: tempo de embarque/desembarque reduzido, fácil acesso de idosos, conforto de usuários e motoristas, modernidade e segurança no transporte. Vamos aguardar.
    Finalmente, vamos comemorar a vitória popular, onde os vereadores, por merchandising pré-eleições ou por consciência civil, revogaram um aumento inesperado e caro na tarifa do ônibus urbano. E agora, será que acabou? Acho que não.

Bons finais de semana.
Rossano Varela


Foto: Rodrigo Sena

4 de set. de 2012

#R$ 2,40!


                E que surpresa, amarga surpresa, Natal teve na última terça-feira (28). Da noite para o dia a passagem de ônibus urbano aumentou R$ 0,20 centavos, passando dos R$ 2,20 para os R$ 2,40. Complicado, muito complicado, ainda mais se levarmos em conta as variáveis de nosso sistema de transporte público.
           No dia em que o aumento entrou em vigor publiquei uma conta, mais uma brincadeira, que mostrava que um veículo de passeio, um Peugeot 106, tornara-se de melhor custo/benefício do que o ônibus, onde o pequeno automóvel francês sai mais barato, quanto a um custo direto, no caso o combustível, que o ônibus. Existem muitos outros carros ainda mais econômicos que podem apresentar uma relação ainda melhor. Enfim, o ônibus em Natal está mais caro que o carro em algumas situações.
              Seria culpa dos empresários? Não acredito nessa hipótese. Embora figurem como vilões, acredito que o aumento tenha sido justo se pensarmos nos custos que as empresas de Natal tem. Com nosso trânsito – e buracos – fica difícil obter um bom rendimento do aparelho, que é o ônibus.
              Culpa dos gestores? Agora sim, chegamos aos culpados. “Essa prefeita...”, “Mas o Governo do Estado...”: não! Não culpo a prefeita, tampouco a governadora. Lamentavelmente o Brasil incentiva o consumo de veículos particulares desde a época de Juscelino Kubitschek (historiadores e estudantes, corrijam-me se estiver errado), criando desde então uma “cultura do carro”. O erro dos nossos gestores, inclusive do governo Dilma é incentivar o uso do automóvel particular, ignorando o transporte de massa. O resultado é: cidade congestionada.
            Não bastassem os muitos automóveis, vem os ônibus de nossa capital potiguar, que não são bons. Aqui eu entro numa discussão polêmica que alguns especialistas em transporte até evitam. Já vou avisando que não estou infectado pelo preconceito, nem pela discussão de marcas, mas analisando por olhos técnicos, a má qualidade de nossos ônibus passa pelas carrocerias básicas e chassis igualmente básicos, onde, desprovidos de conforto, afastam usuários. O chassi mais presente na nossa cidade não é adequado, a meu ver, para um transporte coletivo de qualidade, sendo mera descendência de um chassi de caminhão.
         É difícil falar do assunto porque são muitas as variáveis e o assunto é extenso. Adoraria um bom debate entre os especialistas em ônibus da nossa cidade para refletirmos sobre o aumento. Além do mais, paro por aqui porque esse episódio ainda não terminou, afinal a cidade esboçou algumas manifestações e portanto, teremos novas emoções. Assim espero.

Boas semanas!
Rossano Varela
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NOTA: A próxima publicação irá acontecer no dia correto, na madrugada do sábado para visualizações logo pela manhã tomando um quentinho copo de café com leite e torradinhas.